UMA VIAGEM A MOÇAMBIQUE

Não há dúvidas de que o continente africano tem forte influência sobre nossos costumes, crenças e até mesmo no modo de fazer. Memórias trocadas de geração em geração entre a África e o Brasil são até mais comuns do que possamos imaginar.

Estas semelhanças se mostram fortemente presentes também no design e no artesanato produzido lá e cá. Motivado pelo estudo destas características que nos unem e pelo desejo de desenvolver uma ação voltada para o social em comunidades na África e no Brasil, o designer e consultor Renato Imbroisi se dedica à valorização da arte popular como fonte de renda nestes locais.

Em sua última viagem, realizada pelas comunidades de Moçambique, Paula Ferber foi convidada a participar e conhecer um pouco mais sobre este lindo país, cheio de riquezas naturais, culturais e artesanais. Estas foram suas impressões sobre o projeto:

O que te levou à vontade e interesse de visitar Moçambique?

Sou uma super admiradora do trabalho do Renato Imbroisi, que há 30 anos trabalha com artesanato em comunidades no Brasil e há 15 foi chamado pelo governo de Moçambique para atuar também com as comunidades de lá. Curiosa para ver e acompanhar este trabalho de perto e movida pelo interesse no artesanato, fui convidada, em um grupo com dez designers, para conhecer as habilidades manuais desenvolvidas em conjunto com o Renato na região.

Você já conhecia a África? Quais as sensações que te trazem esse continente?

Ainda não conhecia a região, apesar de reconhecer sua importância e influência em nossa cultura. Moçambique foi uma feliz surpresa para mim. Um país que, assim como o Brasil, foi colonizado pelos portugueses e tem uma cultura tão rica. Por estas semelhanças, senti uma conexão muito familiar e entendi um pouco mais a nossa brasilidade (nossa alegria, nosso jeito de saber dançar, nosso sorriso). Sinto um carinho muito grande pela África e pretendo voltar várias vezes!

Do artesanato e técnicas utilizadas pelos moçambicanos, o que você achou de mais interessante?

Fiquei totalmente fascinada pelos tecidos, as famosas capulanas que vestem as mulheres moçambicanas, e pela maneira com que elas arrumam seus cabelos, com tranças e penteados super elaborados. Apesar de viverem em um país com poucos recursos, as moçambicanas andam pelas ruas com uma elegância singular. Quanto aos trabalhos manuais, o que me chamou mais atenção foram os crochets e tressês feitos com as capulanas nas cooperativas de lá. Estas mulheres, inclusive, virão ao Brasil, visitar nossa fábrica de bolsas artesanais para aperfeiçoarem a técnica e proporcionar trocas de experiências com nossos artesãos. Outra técnica que me chamou atenção foi o trabalho feito em “pau preto”, uma madeira bem escura e dura. Fiquei alucinada com todas as esculturas.

Parceira do Renato em vários projetos, a designer e artesã Cristiana Nascimento também esteve envolvida na visita a Moçambique. Natural da cidade de São Paulo, Cristiana é sócia-proprietária da empresa Absolutamente Necessaire, onde cria e desenvolve bolsas e nécessaires para empresas. Em seu trabalho, o artesanato e o fazer manual sempre fazem parte de suas criações.

Perguntamos a ela um pouco mais a respeito de seu trabalho e suas percepções:

De que forma a sua experiência com as comunidades de artesãos em Moçambique influenciam seu trabalho? Como aplica as técnicas artesanais como designer de bolsas?

Nos trabalhos com as comunidades existe sempre uma troca, e isso é muito importante para o desenvolvimento do meu trabalho. Eles sempre me ensinam técnicas diferentes e me ajudam a mudar o meu olhar. Um exemplo disto são as amarrações tipicamente africanas presentes em alguns modelos de bolsas que crio.

Além do trabalho desenvolvido na África, você também tem projetos deste mesmo tipo aqui no Brasil? Conte-nos a respeito.

Sim, vários. Porém o mais significativo deles é o trabalho de capacitação e formação realizado com as mulheres que compõem o grupo de Bordadeiras do Jardim Conceição, em Osasco, no qual estou envolvida há um ano.

Como foi seu envolvimento nesse caminho e sua parceria com o Renato?

Conheço o Renato há mais de dez anos, porém sempre o admirei, até mesmo como consumidora. Temos uma relação de cumplicidade, parceria e o mesmo jeito de trabalhar. Depois de dividirmos um stand juntos em uma edição da Feira Paralela, não paramos mais de trabalhar juntos! No inicio, comecei a trabalhar com tear manual e produzia para ele. Nosso primeiro projeto envolveu a produção de mais de 1.200 cachecóis feitos à mão, que nos levou a viajar o Brasil juntos.

Acompanhando o grupo, o fotógrafo Lucas Moura, especialista em fotografia documental, registrou a visita de forma excepcional, captando a criação e desenvolvimento da produção artesanal realizada em Moçambique e seu povo, como pode ser visto nas belas imagens que ilustram a matéria.

O resultado deste trabalho pode ser visto na exposição A casa de lá e a casa de cá, com abertura dia 21 de outubro no A CASA Museu do Objeto Brasileiro. Sob curadoria de Renato Imbroisi, a mostra traz tecidos feitos à mão e outras peças têxteis produzidas por artesãos de Moçambique e do povoado do Muquém, em Minas Gerais.

Especialmente para a ocasião, desenvolvemos duas sandálias feitas de capulana moçambicana. Elas estarão à venda na loja do museu e terão parte do lucro revertido para comunidade de artesãos de Moçambique.



A casa de lá e a casa de cá – Moçambique Brasil
De 22 de outubro a 20 de dezembro de 2017
A CASA museu do objeto brasileiro
Av. Pedroso de Morais, 1216 – Pinheiros – São Paulo, SP
www.acasa.org.br

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